city-scape

domingo, abril 02, 2006

 
BERLIM LISBOA

Choriner Strasse 1. A mistura. Os homossexuais. Os ténis Puma. O cinema Central. Os batidos de amora. As bicicletas. O Muro. Os turcos. Os pequenos-almoços. Os semáforos. Os Karrera Klub. Prenzlauer Berg. O café Lass uns Freunde bleiben. Os pastéis de nata no Eka. Os galões com espuma. As gofres no Kauf dich glücklich.. As festas ilegais. Jogar matrecos no FC Magnet. O maço azul do NIL. As festas na Stadtbad Oderbergerstr. A moda DDR. O design. As feiras. As esplanadas. A Karl-Marx Allee. Comer sushi. Fazer um Grill. Os concertos no Magnet. A cerveja Becks. As tartes de queijo. A Fernsehturm. Berlim.


Chiado. A Fnac. Beber 3 bicas por dia. O Adasmator. O rio. Os Santos. O eléctrico. Bairro Alto. O Incógnito. As tascas. As merendinhas. O vinho verde. Cinema King. Os ciclos de cinema no 222. A universidade Nova. Castanhas assadas. A Feira do Livro. O chouriço assado no Clandestino. O Português Suave. Autoestrada do Norte. A ginginha. Alcântara. Os pastéis de Belém. Os concertos no Coliseu. Produções Fictícias no S.Luiz. Jazz no Catacumbas. A Festa do Avante. O sol. A rua da Misericórdia. A Feira da Ladra. Os monhés. O CCB. O Esteves. Os piropos. A Assírio & Alvim. As jantaradas. A imperial. Os bifes da Portugália. Lisboa.


Polliejean
http://bloguiejean.blogspot.com/

terça-feira, março 28, 2006

 
SARAJEVO
agosto 2003:
Cheguei a Sarajevo vindo de DubrovniK na Croácia, depois de falhado o objectivo Sérvia, por que nao seguir até Budapeste via Sarajevo? Após uma noite em Ploche (surreal, mas para um outro relato) eis que chego à velha capital. É dificil descrever o q se sentia por lá. Mal pisamos o cais de (des)embarque vimos um governante qualquer entrar para um comboio, nao teríamos reparado nisso n fosse o exército de guarda-costas que o rodeavam nao faltando ao cenário as metrelhadoras e as espingardas. Confesso que me interroguei se já teria acabado a guerra! uma estaçao desolada, uma arquitectura semelhante ao mercado municipal do Bom Sucesso, no Porto. Necessitava de restauro, éramos no maximo 20 pessoas debaixo daquela nave imensa, nós e um mural gigante pintado de fresco com um anúncio da coca-cola! Acreditem era melhor a visao do reboco velho descascado. Senti-me estranho ao ver aquele exemplo de publicidade pura e dura numa cidade onde há tanto mais para fazer. Sem mochila às costas havia que aproveitar o único dia em que iria estar na cidade. No posto de turismo jaziam posters ‘vintage’ nas vitrinas, alusivos ao comboio rápido (1980) ou aos jogos olímpicos de inverno (1984). Nao foram escolhidos por nenhuma opçao retro, a sua permanencia justificava-se com o ‘esquecimento’? nao sei... mas acreditem, para esta gente o tempo parou. Nao vi pontes, arquitectura de autor ou atracçoes de turismo local. Vi tristeza na rua, edifícios com buracos, sinaléticas a proibir a entrada de armas em cafés e Sinagogas!
Os capacetes azuis passeavam pela rua. Eram eles e o contra poder, gangs de jovens em atitude de provocaçao que surgiam de ruas menos centrais. Multibancos - encontrei um, com fila onde se falava tudo menos os dialectos dos Balcas. Afinal até ficava ao lado do edifício onde se situavam os escritórios internacionais e os departamentos locais das Naçoes Unidas, por momentos senti-me num bairro comum a tantos outros da europa do leste. O dia foi passando, apercebi-me que aquele cenário de tranquilidade descrito anteriormente era uma excepçao, ao vaguear pelas ruas bonitas e violadas só me vinham à cabeça imagens das cidades invisíveis de Italo Calvino. Confesso que saí de lá perturbado, se calhar pela visita à mesquita onde falámos com o ‘sacristao lá do sítio’ que desabafou durante largos momentos. Aquele povo tem sede e fome de tudo, a guerra congelou-os em todos os sentidos, no tempo e modo de pensar, sao pessoas frias, tristes, mas acreditam em algo... naquele dia em que tudo irá passar. Nao sei se terei vontade de lá voltar, tenho receio de encontrar uma Sarajevo capitalista, semelhante a outras capitais Europaístas. ...Gostava sim de poder ter conhecido Sarajevo em 84, na magia das Olimpíadas, e poder viver a magia com que aquele povo sonha quando vai dormir...
Tiago Oliveira, março 2006

sábado, março 18, 2006

 
PORTO

O PORTO, A PONTE DE D. LUIS E O METRO

Quem é do Porto vai entender-me.

Quando não existia a ponte da Arrábida o regresso ao Porto tinha de ser feito pela ponte D. luís.

E depois era mais prático entrar pela da Arrábida, mas tínhamos a possibilidade de fazer mais uns km, mais uns minutos no carro e podíamos se quisessemos ter aquela emoção de ver o Porto aproximar-se lentamentente, ou nós a aproximarmo-nos lentamente do Porto.

E nem que a ausência não tivesse sido muito longa, era sempre bom sentir aquela imagem silenciosa, tranquila e impávida a acolher-nos. Uma estrutura sólida, densa, na qual sentíamos que íamos entrar e ficar lá dentro protegidos, como se voltássemos ao útero da nossa mãe.

Como é que deixámos que nos tirassem esse prazer? Ou que nos tirassem a hipótese de o podermos ter quando sentíssemos essa vontade?

Como foi que ficámos despojados de podermos emocionar-nos com a visão do Porto a engolir-nos no regresso a casa?

Manuela

 
ESMERALDAS

A CIDADE MAIS FEIA DO MUNDO

De férias no Equador! Um sonho de criança revelou-se realidade. Afinal eram reais as fotografias da National Geographic, vistas e revistas vezes sem conta. Ou seriam as recordações das aventuras do tin-tin?Não interessa, o importante é que ali estava eu, naquele país inacessível com floresta amazónica, montanhas intransponiveis com vulcões cobertos de neve como nos desenhos animados, com ilhas povoadas por seres estranhos e felizes (iguanas, tartarugas,pinguins,todos em feliz harmonia como se estivessem ainda no jurássico).

E como corolário , para retemperar as energias gastas em tanta novidade e tanta emoção, uns dias numa praia quase deserta, próxima de uma aldeia de descendentes de escravos fugidos aos espanhois,refugiados na costa do pacífico, onde conseguiram sobreviver dedicando-se à pesca.

Mas tanta natureza também cansa, e a tentação de visitar uma cidade desconhecida, a poucas centenas de Km foi aumentando, enquanto a tosta ao sol aguçava a curiosidade, e a imaginação arranjava motivos dignos das aventuras lidas no Cavaleiro Andante para justificar aquele nome tão apelativo: "ESMERALDAS"!

Seria o local de um tesouro escondido?, haveria minas de esmeraldas que só alguns iniciados conhecessem e se tivessem esquecido de revelar?

E assim, o apelo do nome, e a vontade de conhecer a cidade ,sobrepuseram-se ao prazer de emitar as iguanas ao sol e os lobos marinhos na água.

Aproveitando a boleia na caixa aberta de uma camionete igual à da série americana Viver no Campo, conduzida por um galego que se perdeu e foi dar àquela costa, lá partimos entusiasmados com a perspectiva de conhecer Esmeraldas.

E foi uma emoção indescritível. E espero que seja também irrepetível.

É que Esmeralda foi nesse dia classificada como a cidade mais feia do mundo. Não pode haver pior. Nem mais feia, nem mais desordenada, nem mais porca, nem mais inóspita, nem mais desorganizada, nem mais perigosa, nem mais nada.

É o prinicipal porto exportador de petróleo do Equador,está rodeada de refinarias, e os contrafortes dos Andes que a ladeiam a leste foram completamente desflorestados para plantar bananeiras. Há Km e Km de terra cobertos pelas sacas azuis de plástico que utilizam para cobrir os cachos de bananas antes de os cortarem.

A entrada da cidade é anunciada por dezenas, isto é, centenas de abutres que fazem voo razante sobre os visitantes enquanto se aproximam da lixeira a céu aberto que ocupa centenas de metros da berma da estrada e que em algumas partes a invade. E ao levantarem voo voltam a saudar-nos de perto, mas aí já com o bico e/ou as patas ocupadas com restos de animais que os açougues aí depejam (tripas, peles, eu sei lá mais o quê).

O cheiro nauseabundo é ampliado pelo calor dos trópicos, e tudo isto apreciado de uma caixa aberta de uma camioneta ridícula e a ameaçar desfazer-se nas curvas, e a tentar em vão desviar-se dos buracos, tem outro impacto!

Entrando no perímetro urbano, a orientação é difícil, nem dá para entender para que lado é o porto, o centro, ou o mercado.

Só mesmo o Galego de que já esqueci o nome nos podia orientar, já que é lá que se abastece para o restaurante que tem na praia, mas o homem não foi de guia turístico, só nos fez o favor de nos dar boleia. E tinha mais que fazer, comprar camarão descascado, peixe fresco e fruta.

Bem que nos avisou, bem que achava estranho querermos ir a Esmeraldas.

Desapeados da camioneta, lá fomos perguntando aos autóctones, que tão admirados estavam de ver estranhos a querer visitar Esmeraldas, que até se esqueciam da pergunta, isto é, de nos dar resposta à primeira, mas lá fomos sabendo que o mercado é muito perigoso para estrangeiros.

O porto é inacessível. O centro não é identificável.

O transito é caótico. Os passeios quando existem estão a 50 cm do pavimento das ruas, que está esburacado

O comércio era o equivalente ao refugo , ou melhor ao saco do lixo dos armazéns chineses da zona industrial de Vila do Conde.

Depois de bebermos qualquer coisa num restaurante que era também o posto do correio, lá nos encontramos com o nosso motorista, e encetámos a viagem de regresso, partilhando a caixa aberta com os víveres. Foi a sorte dele, porque os defendemos com toda a nossa força e argúcia dos abutres que nos esperavam à saída da cidade.

E nessa noita, revendo a experiência no areal morno de Muisne, elegemos Esmeraldas como a cidade mais feia do mundo.

Manuela

terça-feira, março 07, 2006

 
HELSÍNQUIA
(Helsínquia tem fé nos arquitectos - modernos - assim se percebe que o seu carácter Carta de Atenas tenha resistido às mais variadas reviravoltas políticas; cada um tem a sorte que merece.)

1.
O projecto de Helsínquia é feito em papel vegetal, sob papel milimétrico. Traçam-se com regra as várias redes de transporte, desenham-se cuidadosamente os centros públicos e preenchem-se, com gosto, as tramas de parques e jardins. A maqueta de Helsínquia faz-se com duas folhas de madeira, recortam-se livremente toda a espécie de lagos, baías, cabos e penínsulas – construindo um tabuleiro harmonioso de cheios e vazios no qual sabiamente se implantam os volumes sob a luz do sol.

2.
Num dia de Verão, uma das melhores promenades que Helsínquia nos oferece serve quem acaba de chegar à cidade, por comboio. Em direcção a Sul, e antes de começar a descer a Esplanadi em direcção ao Báltico: comprem uma mão-cheia de amoras e comecem uma conversa com alguém na rua, assim se conhece a cidade que não pode ser desenhada.

Miguel Araújo
Porto, 13 de Fevereiro de 2006

domingo, março 05, 2006

 
BORN
Um bairro na cidade velha habitado por gente nova. Nas ruas há raparigas loiras a passear cães pequeninos. Não se fala tanto catalão como castelhano ou inglês.
A primeira casa tinha uma entrada que dava para um pátio. Uma segunda porta que rangia muito e umas escadas confusas, uns 10 lanços com diferentes direcções até ao primeiro piso. A casa era pequena, o meu quarto não tinha janelas nem chegava a 6m2. Mas era muito alto, toda a casa tinha 4,8 metros de pé direito. A sala tinha uma varanda onde me sentava às vezes a olhar para a Igreja de Sta Maria del Mar. Era o melhor espaço da casa. Vivia com três suecas de 25, 27 e 29 anos e respectivos cães pequeninos.
A segunda casa fica a 3 minutos. É um edifício grande e imponente com 170 anos. Tem uma arcada em 3 lados com uns 4 ou 5 metros de largura, pilares de pedra fortes e maciços. Na esquina fica o Restaurante 7 Portes que é muito concorrido, nunca entrei mas já ouvi a música do piano e espreitei pelos vidrinhos ligados por molduras de chumbo. Uma espécie de rua pedonal atravessa transversalmente o edifício. Chove no centro desta passagem e já me disseram que em Nápoles as casas também são assim. Moro no último piso: 2º para os espanhóis mas 4º na nossa nomenclatura. O último é o mais baixo, tem cerca de 3 metros de altura. O mais alto é o Principal. O puxador da porta é cerâmico, tal como na primeira casa. Há 2 salas ligadas por 2 átrios. Todas as portas e janelas das salas e átrios estão alinhadas frente-a-frente, coincidindo com o eixo de simetria do edifício e consequentemente do quarteirão. O meu quatro tem cerca de 30 m2. Tem uma pequena varanda virada para o Born. O pavimento é cerâmico e colorido, um puzzle que forma um padrão típico das casas de Barcelona. Tenho uma cama grande e um estirador antigo que encontrei, limpei e montei.
Nas traseiras da minha casa fica a Champanheria. Na Champanheria bebe-se cava e come-se sandes de lombo com queijo ou pimentos. A Champanheria está sempre muito cheia, come-se de pé e apertado e normalmente conhece-se ou encontra-se gente. Vou à Champanheria pelo menos uma vez por semana, é bom, barato e tem carisma.
Nos fins-de-semana gosto de ir às Pizzas del Born. As pizzas del Born são argentinas. Nos Sábados ou Domingos à tarde em que vou às Pizzas del Born tenho conversas e ouço uma música agradável. As pizzas vendem-se em porções de 1,5 euros. Às vezes reparo que cada mesa tem coca-colas e gente que não tira os casacos nem os cachecóis, como eu, não por ter frio mas por preguiça. As conversas-do-dia-seguinte vão fluindo, às vezes estou distraído a ouvi-las e reparo que se decide fazer uma tatuagem num dia como esses. Algo que a sueca Tove já me havia mostrado, vem tatuando o corpo desde há 6 ou 7 anos, e nunca vi ninguém em que ficassem tão bem.
Paulo

sábado, março 04, 2006

 
MENDRISIO por Paulo Moreira

We do like to see the skyline and citylife of New York or Tokyo and then come back to the green fields, you know, and do nothing. And sleep. And do that again and again. Miss Kittin & The Hacker, ‘You and Us’

Viver em Mendrisio foi ir a Lugano, Chiasso, Bellinzona, Valle Maggia, Flims, Vals, Chur, Haldenstein, Vrin, Brissago, Zurique, Lucerna, Berna, Basileia, La Chaux-de-Fonds, Genebra, Neuchatel, Murten, Yverdon, Como, Veneza, Verona, Pavia, Milão, Vicenza, Ronchamp, Moulhouse, Barcelona, Porto, Berlim, Cottbus, Dresden, Praga, Brno, Viena, Budapeste, Zagreb, Ljubliana, Zadar, Sarajevo, Mostar, Dubrovnik, Podgorica.

Viver em Mendrisio foi conhecer Karlsruhe, Lagoa, Famalicão, Tucuman, Tiblissi, Timisoara, Scutari, Maiorca, Madrid, México, Corunha, Barcelona, Hamburgo, Varese, Bucareste, Haia, Paris, Lausanne, Marselha, St Gallen, Tokyo.

Mendrisio é um lugar onde pessoas com um interesse comum se juntam provisoriamente. Semanalmente os professores chegam de Haldenstein, Viena, Lugano, Nova Iorque, Zurique, Milão, Paris, Roterdão, Barcelona, Lisboa.

As pessoas conhecem-se. Conhecem-se muito. Almoçam juntas. Trabalham juntas. Vivem juntas. Cozinham juntas. Viajam juntas. Bebem e divertem-se juntas. Em Mendrisio ninguém é de Mendrisio. Sou de Mendrisio quando saio.

 
BASEL por Paulo Moreira

É uma cidade de contrastes. Entre o muito bom e o muito mau. Não me interessa se uma cidade tem 200 museus (não é uma força de expressão, a cidade tem mesmo 200 museus). 1 por cada 1000 habitantes mais ou menos. É bom como fomento da arte e da cultura, mas uma cidade precisa de vida. Não deixo de agradecer que a cidade seja assim, porque me obrigou a saír sempre que podia e assim nasceram estes relatos.

Festas ilegais debaixo de um viaduto, multas por andar de bicicleta com luz azulada em vez de ser branca. Festas numa fábrica caótica, multas por andar de bicicleta no passeio numa rua que só tem um sentido. Festas num Areal que se esqueceram de organizar, multas por ser preto. Festas num armazém grande e escondido, multas por festejar um golo aos berros. Festas numa casa com quatro pisos, multas por não ter o selo na bicicleta. Festas por que não, multas por que sim.

quinta-feira, março 02, 2006

 
K L por Zé Cláudio Silva

A aproximação à cidade é feita de táxi, por uma elegante e invejável auto-estrada, impecavelmente tratada e sinalizada que liga o Norte ao Sul da Malásia, e, no caso, o aeroporto ao centro de Kuala Lumpur. Tudo muito verde, muito limpo, muito perfeito. De quando em vez vislumbram-se, por entre coqueiros e palmeiras e, possivelmente, assinalando um qualquer lugar sagrado, minaretes e cúpulas islâmicas...

Progressivamente, com o aproximar à metrópole, as densidades mudam... Surgem blocos habitacionais... Ouso identificá-los com vestígios formais do Modernismo... Civilizados... Sem apropriações nem acessórios no exterior que não sejam somente testemunhos da urbanidade, de vivência, de ocupação – soutiens, burcas, toalhas penduradas... Estaremos na Ásia-Oriental?... Lá para dentro – senti que o caminho era uma circular urbana – as torres! Aglomeradas, por sinal. A imagem da cidade é verde, horizontal, por regra plana, contrastando com torres somente dentro dos limites do Central Business District, do “Golden Triangle”.

Cidade-jardim por convivência, influência e ocupação inglesa, cidade-mundial, pela mescla de culturas, pela confluência de gentes: descendentes indígenas, chineses, indianos, indonésios, ingleses e filipinos, taoístas, confucionistas, budistas, hindús, muçulmanos, ateus e agnósticos... Cultura e Civilidade. Tolerância e convívio. Para um turista, facilmente camuflável, por sinal: cidade-contraste, riqueza, surpresa, conforto...

Perdendo-me pela cidade, a surpresa é constante, a história é presente. A estrutura é clara. Salvo a espaços, onde os bairros são estruturados e a ordem é evidente, bairros hierárquicos sem serem necessariamente previsíveis, a validade objectual da arquitectura prevalece em relação ao urbanismo estruturado. A individualidade é exaltada. A identificabilidade de princípios anglosaxónicos coloniais é afirmativa, exclamativa até... São exemplos dessa herança os expressivos edifícios neo-clássicos com reminiscências mouriscas, árabes ou bizantinas onde pontificam os arcos e as cúpulas tais como o “Sultão Abdul Samad” ou o “Royal Selangor Club” – uma versão “britânica” da arquitectura tradicional malaia ou ainda a inevitável Estação de Caminho de Ferro. Herança esta, comum das cidades que tiveram a Inglaterra como força colonizadora tais como Hong Kong, Bombaím e talvez Joanesburgo, entre outras...

Penetrando pela cidade mais recortada, mais densa, mais plana e baixa e guiando-me pelos minaretes e cúpulas das múltiplas mesquitas, às quais ìa tentando visitar, vou encontrando, por vezes, uma cidade mais surpreendente ainda, um bairro mais homogéneo, uma referência mais discreta, um templo hindú. Por entre rituais descalços, a que aderi, por entre os sons de oração vou sendo recebido como um dos demais... Os “demais”, já agora, tinham olhos afunilados, uns, outros a pele escura, mas todos uma pinta vermelha na testa e muita amizade, vontade e... comida para partilhar, sim(!), comida. Insisto no conceito “cidade-mundial”, uma adaptação social ao conceito económico-financeiro “cidade-global” de Saskia Sassen.

Continuando perdido pela cidade, ao som dos corvos e do tráfego, ao cheiro dos tandoris, dos kebabs e dos congees, mas ao ritmo dos edifícios... Uns anónimos, outros de cores fortes estilo-indiano assemelham-se, contudo, aos de La Habana ou aos art déco da orla interior portuária de Macau, estes por ora já demolidos, por sinal de um despegado pragmatismo urbanizacional macaense... Enfim... Voltando... Uns tinham arcadas que protegiam os caminhos da violência solar, outros um páteo à entrada e varandas no primeiro andar... Edifícios de bairros que ligavam os meus destinos, levemente planeados com auxílio, agora, do inevitável guia da modernidade e da preguiça - o lonely planet...

Chinatown! Resquícios de uma banalização de outras versões, tão autênticas(!), como as de São Francisco ou, possivelmente, da vizinha Singapura... Até os intérpretes feirantes de objectos falsificados, tão típicos nas “towns of China”, são “não-chineses”... Bangladeshianos(?) talvez... Por meio destes beberes da cidade vou cruzando as vistas com edifícios, uma vez mais, pontuais, singulares, profundamente objectuais e iconográficos, mas de uma contemporaneidade de exaltar... Adequados ao lugar e às culturas, sobretudo. Ensaios vanguardas como a abstratização de símbolos islâmicos e exploração dos seus valores arquitectónicos, resultaram em edifícios de fachadas modernas e contemporâneas... Exemplos do Kompleks Dayabumi ou do Museu de Arte Islâmica, actual, racional mas surpreendente, subtil na luz e exaltante no pormenor, ou da Mesquita Nacional, que edifício! Islâmico e Modernista(!?), arriscaria... Por vezes até vanguarda para os nossos dias e para os “pré-conceitos” que se atribuí, recursivamente, à presente cultura dominante, a islâmica... Ao melhor nível do que se pudera, em tempos, encontrar em Bagdad, acredito eu... Entre o moderno clássico e o racionalismo Kahniano sem deixar de fazer lembrar a subtileza e controle material mais contemporâneos de Zumthor e do domínio do uso da luz em Vals... Emociona, verga, converte!

Rumo à cidade-moderna!... “Golden Triangle”!... “Golden” pela pujante arquitectura da riqueza, do sucesso, do petróleo e do turismo, das Petronas e da KLTower... “Triangle” pela delimitação física através de três largas avenidas. A desordem e a dispersão são evidentes mas amenizadas pela densidade de vegetação e facilidade de deslocação pedonal. Uma vez mais relaciono com a estrutura e a imagem herdada dos ingleses. “Little Hong-Kong?”, “Little Mumbai?”... Os edifícios alternam entre hotéis, escritórios e os verdadeiros mega-templos da modernidade - os centros comerciais. São serpenteados pelo monorail, igualmente pragmático como o skytrain de Bangkok, na estrutura e no percurso, mas mais subtil na existência física e na distância ao construído... Pensado, integrado e parte da imagem da cidade.

Finalmente, e não querendo fazer de jovem veneziano na tentativa de deslumbrar o imperador dos tártaros... Kuala Lumpur não deslumbra na chegada, mas apaixona na estadia e deixa saudades na partida.
Pela pluralidade, múltiplas influências, múltiplos diálogos, pelas múltiplas convivências de gentes, culturas e religiões e pelas implicações que transportam para a arquitectura, para o urbanismo, para a urbanidade e aqui incluindo cheiros, paladares e sons, pela constante descoberta do improvável e do surpreendente, KL merece que seja incluída nos itinerários obrigatórios mundiais urbanos... Implica disponibilidade para a descoberta e convida à reflexão. Enfim... atrai e contagia!

 
BERLIM por Diogo Matos

acordei. olho para o relógio. o único objectivo que me movia hoje foi falhado. a mensa vai fechar dentro de 10 minutos. nao importa. preparo-me, saio de casa depressa. acabei de chegar de munique onde passei o natal, a casa ainda nao teve tempo de aquecer e por isso a temperatura invernal ambiente ainda se sente integralmente dentro do meu quarto.
vou dar uma volta de metro, de livro no bolso. cruzo a cidade. leio. passou uma hora e meia, continuo sem saber o que fazer, nao combinei nada com ninguem, nao me apeteceu. gosto de estar sozinho. nunca tinha estado sozinho antes de vir viver para berlim. um ano sem objectivos, um ano sem horários. mais tarde vou descobrir que não gosto de não ter objectivos ou horários, mas pelo menos por enquanto sabe-me extremamente bem. o dia concede-me mais duas horas de luz, resolvo aproveita-las. vou dar uma volta por Prenzlauer Berg, sentar-me num café beber algo quente.
o meu primeiro contacto adulto e autónomo com berlim aconteceu há três meses. não foi uma cidade fácil de decifrar, assustou-me. nunca tinha esperado uma cidade tão áspera, tão estranha. guiei pela cidade seguindo as orientações do luis, munido de mapa. procurávamos uma casa, tarefa dificil. tudo parecia desadequado, por incrivel que pareça acabamos por escolher a mais desadequada de todas. no entanto, adoro-a. a sua localização é simplesmente surreal, longe de qq tipo de referencia que possa indicar. quando a visitamos deixei-me seduzir pela luz que inundava aquele que viria ser o meu quarto através das duas janelas verticais enormes. a casa é caricata. o duche é na cozinha, ou melhor num cubiculozinho dentro da cozinha. a água quente controla-se do lado oposto ao sítio onde se toma banho. a senhoria é um tipo de pessoa que seria muito dificil de conhecer no porto. com 65 anos de idade fala um inglês perfeito, doutorada em botânica provavelmente cultiva erva no quintal atrás de nossa casa.

-"berlim não tem charme" - reajo com indiferença. passou um ano desde que deixei berlim, vivo numa cidade que suponho eu, deverá ter charme, se me apetecer mijar contra uma parede provavelmente sou preso e deportado. os carros so podem estar estacionados nos lugares brancos, os azuis sao para moradores, os amarelos so durante a noite. a cidade é limpa. estou farto de charme, este ambiente esterilizado irrita-me. quero poder berrar em casa sem ter a policia 10 minutos depois à porta. quero festas em caves onde me sinto claustrofóbico e tenho de baixar a cabeça para passar nas portas. quero ver grafitis. quero avenidas gigantes. quero sujidade, fumo, pedintes, metro, alcoolicos. sei q nunca deixei berlim.

 
BERLIM por Paulo Moreira

A relaçao de afecto que tenho com Berlim está a apurar-se à distancia.
Ao ler sobre Kreuzberg.
Ao ouvir Miss Kittin.
Ao ver fotografias de Michael Schmidt ou Gabriele Basilico.
Nos primeiros dois dias em que estive nesta cidade senti-me perdido. Nao havia referências, precisava de ajuda. Mas aquele frio lentamente atravessava a minha roupa e comecei a incorporar o espírito da cidade.
Uma semana em Berlim é pouco e por isso voltei na primeira oportunidade que tive. De Bonjour Tristesse a um jantar vietnamita em Prenzlauer Berg, um bar de praia artificial, uma gelataria com música ao vivo e coisas em segunda mao à venda. S-Bahn, U-Bahn, faltam azulejos nas estaçoes de metro e as vigas estao à mostra. As imensas empenas de edifícios ocupados ou desocupados deixam espaços livres que nao sao praças nem nada, sao os espaços incertos de Berlim. Há um muro em ruinas e uma ruina de um edificio que nao chegou a ser novo. Em Berlim há turcos e nos bares joga-se matrecos. Há mercados baratos e edifícios de gaveto. A cidade fomenta a produçao de artistas fornecendo-lhes condiçoes. Isto de ir conhecendo uma cidade à distancia nao é um conceito que me agrade particularmente, nao ajuda à rotina nem facilita a orientaçao, por tudo isso sei que vou voltar a Berlim.

quarta-feira, março 01, 2006

 
LA CHAUX-DE-FONDS por Paulo Moreira

Três anos antes tinha escolhido as primeiras casas de Charles-Edouard Jeanneret para estudar na disciplina Métodos e Linguagens da Arquitectura Contemporânea, na FAUP. Interessou-me o ponto de partida, queria saber mais sobre como tudo tinha começado, ia ter muito tempo para perceber aquilo que viria a seguir. Charles-Edouard nasceu em La Chaux-de-Fonds, uma pequena cidade no vale do Jura, fronteira entre Suiça e França. Partiu para Paris aos trinta e um anos, e aí nasceu ‘Le Corbusier’. Aquilo que me interesava era saber quais as suas raízes, pois nao acreditava nas críticas supérfluas que consideravam essas casas ‘horríveis’, que ‘nao tinham nada a ver’. Custa-me acreditar porque acho que o que fiz até agora e o que vou fazer até aos trinta e um anos vai servir para alguma coisa, espero eu. Quando finalmente a ocasiao se proporcionou, chegava à Suiça pela parte francesa e propus essa visita aos ‘chalets’ da colina La Pourriel.
Por ordem cronológica, as casas vao aparecendo num caminho tortuoso. A primeira foi construída quando Charles-Edouard tinha dezoito anos, seguindo-se outras duas para familiares e amigos próximos, e finalmente a casa Jeanneret-Perret, projectada e construída depois da viagem à Grécia. Este facto é importante porque a técnica construtiva, as soluçoes formais, o branco, a implantaçao e o percurso talvez se refiram à Acrópole.
Seguidamente Charles-Edouard desceu a colina. A cidade é um caso de estudo urbanístico, trata-se de uma grelha ortogonal que forma quarteiroes estreitos e compridos. O plano deveu-se a um incêndio que destruiu grande parte da cidade (tal como noutros casos o progresso urbanístico decorreu de uma desgraça). Charles-Edouard construiu um cinema que já pouco tem de original e a Villa Schwob, mais conhecida em La Chaux como ‘Ville Turque’. Turca porque Charles-Edouard viajara à Turquia e trouxera algo daquela cultura. Passados cerca de dois meses da primeira visita, voltei a La Chaux-de-Fonds. A intençao era procurar um terreno para o projecto académico, uma vez que a escolha era livre. Acabei por nao fazer o projecto nesta cidade, por motivos que nao têm a ver com este texto. Mas esses dois dias sozinho em La Chaux-de-Fonds tiveram o seu encanto. A Vila Turca pertence a uma conhecida marca de relógios (a indústria forte da regiao), que uma vez por mês abre as suas portas ao público. Por sorte esse único Sábado mensal era o dia em que cheguei. Como chovia lá fora, fiquei várias horas dentro da casa, em cada espaço, na sala com pé direito duplo, nos quartos com passagens escondidas, na cave onde se mostra um filme sobre Le Corbusier. Foi uma tarde especial.
A terceira visita ocorreu cerca de um ano depois, sabe sempre bem repetir aquele caminho como um peregrino percorrendo as capelinhas.
Nao voltei a La Chaux-de-Fonds mas muitas vezes me lembrei daquelas casas quando visitava Ronchamp ou La Tourrette. Parece-me que, mesmo inconscientemente, as raízes suiças de Le Corbusier para sempre o acompanharam. Numa dessas visitas o meu professor falou das centenas de quilómetros que fez quando Le Corbusier morreu, só para se despedir do seu corpo. Este tipo de discursos ficam na memória. Fica também o trajecto que o jovem Charles-Edouard percorreu, que fez do seu próprio percurso um itenerário que muitos vao continuar a seguir.

domingo, fevereiro 26, 2006

 
BARCELONA por Miguel Marcelino

Quando volto de Barcelona a Lisboa sempre me perguntam se já visitei muitas coisas ou se já vi todas as obras de Gaudi. Tenho respondido sempre que não porque nos dois dias semanais que me sobram gosto de descansar, estar com amigos e passear pelas ruas junto a minha casa, na cidade velha.
Aparte da primeira viagem a esta cidade, em que visitei quase todos os monumentos "obrigatórios", enquanto morador praticamente tenho apenas vivido a cidade. E realmente não me sinto com a mínima vontade de depois de cinco dias de trabalho ir visitar os tão aclamados edifícios pomposos de Gaudi, cheios de turistas a fotografar os enfeites do arquitecto, qual bolo de chantili. Há uns anos, ainda inseguro do meu conhecimento e capacidade crítica limitava-me a esforçar por me obrigar a gostar dessas obras. Mas agora tenho a certeza que é uma arquitectura que não me afecta pois o seu interesse esgota-se, tal como numa montanha-russa de um parque temático, na primeira visita. Sinto que todo o artifício e fantasia em criar o seu "mundo" é demasiado caprichoso e não corresponde ao tipo de poética que realmente me toca e faz revisitar lugares vezes e vezes. Quando penso em Barcelona enquanto foco de arquitectura, vem-me sempre à mente dois exemplos claros e destacados. A "plaça del rey" no bairro "gótico" é um sitio para mim de paragem obrigatória todos os fins-de-semana nos meus passeios pedonais. Está carregada de uma naturalidade, equilíbrio e harmonia desarmantes; a aparente intencionalidade de todos os edifícios que a compõem faz deste sitio um lugar verdadeiramente especial e das minhas preferidas praças. É um conjunto de edifícios que embora não aspirem a nenhuma coerência enquanto praça, como um logradouro, respiram todos em harmonia cada um com suas pequenas excepções contribuindo para um todo equilibrado, unificados pela presença única e tão forte da pedra – remetendo-os para uma espécie de caos em harmonia. A sua aparente desordem assenta numa ordem tão elevada e superior cuja estética me parece muito similar à das "Bodas" de Igor Stravinsky, na minha opinião uma das mais geniais peças musicais de todos os tempos. Muitas vezes sinto uma ligação entre algumas obras musicais a obras de arquitectura e estes dois exemplos penso que estão claramente interligados; o meu entendimento das duas enquanto pessoa formada em arquitectura e em música permite-me percebê-los como obras que partilham do mesmo tipo de conceito de estética. Não têm qualquer tipo de "receita", e por mais tempo que passe a analisar toda a praça ou a ouvir os preciosos 23 minutos das "Bodas", não consigo descodificar o que é que concretamente as tornam tão especiais. O certo é que mesmo com o meu sentido crítico em máxima exigência, não lhes consigo imputar erro algum ou pormenor que alteraria, todo o seu todo é irrepreensível.
O outro exemplo é a Igreja de Santa Maria del Mar no bairro "el born". É também daqueles exemplos fenomenais. Por fora, em qualquer ruela, parece que a igreja foi desenhada e construída ao mesmo tempo que as ruas circundantes de maneira a proporcionar a melhor perspectiva. As suas torres estão sempre no lugar certo, é sempre bela, de dia, de noite, com chuva, com sol, no Verão ou no Inverno. É uma obra superior. Sempre que posso vou à missa nesta igreja pois as suas qualidades orgulham e dignificam-me enquanto crente. Vejo a beleza desta obra como a beleza da nudez, em que temos apenas o essencial nas mais belas proporções e acerto sem qualquer elemento supérfluo; a presença da pedra é muito forte, não há nada a mais; a estrutura define o espaço e cria a atmosfera. O resultado é tão bem sucedido quanto a síntese de uso de elementos de arquitectura; com apenas estrutura, pedra e espaço temos uma das mais belas igrejas. Simples e directa, sem caprichos. Transpira inteligência.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

 
MILANO por Teresa Ferreira

Andar anónimo na rua, em passo rápido, cruzando pessoas de todos os tipos e raças, identificando cheiros, 'buongiorno grazie' e pegar no jornal do metro, entrar no tunel, ver a luz outra vez, chegar ao destino, procurar nervosamente moedas, enfiar na máquina, capuccino con cioccolato...

Sair do destino, escolher entre um happy-hour, um restaurante étnico económico, uma sessão num ciclo de cinema, um espectáculo, um passeio no centro ou uma ida ao supermercato mais próximo, se o frigo estiver vazio...

Sentir ainda adrenalina viciante de descobrir diariamente coisas novas, um pormenor de cidade, uma coisa que se come, uma pessoa, um lugar de que se gosta e que se quer levar consigo para sempre.

Assistir com prazer a uma convivência de aparentes opostos: restos romanos e arquitectura moderna, edificios liberty, arranha-céus, lojas fashion de roupa e design, as galerias Vittorio Emanuelle, a nova feira do Fuksas, o Castelo Sforzesco, o salão do móvel, o mercado de antiguidades nos Navigli, a Galeria Armani do Tadao Ando, a ultima ceia do Leonardo, o Pirelli, o Duomo, a Biccoca do Gregotti e a ópera no Scala....

Aproveitar tudo aquilo que uma grande cidade não periférica pode oferecer, por uns tempos...

sábado, janeiro 28, 2006

 
PARIS por Paulo Moreira

Gosto de visitar uma cidade várias vezes e começar a ter coisas preferidas para fazer. Integro-me facilmente num novo ambiente, faço a vida que os outros fazem, posso ser turista mas também posso não ser. Fico hospedado em casa de amigos no limite da periferia, numa rua repleta de edifícios inacabados em tijolo com empenas incaracterísticas.
Gosto do Palais Tokyo. Renovado mas mantendo a personalidade original do edifício, o novo uso reflete o pensamento duma sociedade culta e civilizada. A arquitectura não tem que ser cara para ter qualidade. Um museu não tem que restringir o acesso aos visitantes, não tem que impor regras e mais regras, como se a liberdade nos fosse temporariamente retirada. No Palais Tokyo posso levar o meu lanche, sentar-me no bar e conversar com os meus amigos. Posso jantar, ver ou comprar um objecto exclusivo, livros e tudo o que os museus de hoje têm. É bom quando se entende a mentalidade de alguém que imaginou certo espaço, ainda mais quando essa imaginação não previu exactamente tudo o que poderia acontecer.

 
BARCELONA por Paulo Moreira

Andar de metro faz-me lembrar cidade. E depois quando saio, caminho com o frio de Janeiro, atravesso um viaduto, ao lado há construções paradas, é noite.
Dentro de um quarteirão sujo ouço um som arrebatador, há tatuagens, piercings, repas, pins, cultura urbana.
Momentos antes, num quarto andar no Raval, num edifício velho, interior white washed, tenho a sensação que a fachada não é importante, ninguém vive na fachada. Vive-se na sala cheia ouvindo música, vendo fotografia, folheando livros e começando a conhecer gente que gosta desta coisa que são as cidades.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

 
BERLIN TOKYO PARIS PORTO por Luís Cadeco

3maisadesempre

empolgados a ouvir U2 no máximo, entramos de noite por um empilhado de auto-estradas com uma espécie de torre eiffel como cenário. não percebemos bem, é este o cartão de visitas? 5 minutos depois estamos perdidos, não importa. vagueámos pela cidade, bebemos cerveja e comemos dôners à procura de emoções no lugar que não encontramos. acordo num dia de primavera e tudo faz sentido. encontro-me com a cidade, modesta mas magnífica, densidade histórica, escala e dimensão. meia centena de concertos rock por semana, ópera, teatro cultura, culturas diferentes, confluem. consistente. ... torstrasse 70 - entramos, subimos até à cobertura para o último churrasco, uma torre no horizonte sempre presente. as memórias precipitam-se viagens de campo, floresta, nadar em lagos, sair à noite, festas, o som, inédito em primeira mão, no sítio certo.estamos de saída;
estou preparado. sabia o essencial: meias sem buracos e comer a fazer barulho. aprendo com o mestre evoluo a técnica, sou elogiado e reconhecido. os pauzinhos não têm segredos para mim, a vida é peculiarmente simples;
parto deste estranho mundo onde viviam em cápsulas. blocos de pedra empilhados, edifícios, quarteirões. culto do património. os carros estão sujos e amolgados. está tudo igual aqui em casa, falam com um sotaque diferente mas habituo-me, glamour e ostentação, bebo champagne, escuto tudo, demasiado;
viajo no tempo, revisto a cidade, música nova. de volta às festas do museu. esgoto o programa. ritmo frenético, intensidade, projecção e densidade dão lugar a outro universo, outro focar. compro candeeiros e tapetes, barquinho no clube e passeios de fim de semana.
penso em ti, sempre

sábado, janeiro 14, 2006

 
PRAGA por Paulo Moreira

Praga acabou por ter um papel na minha vida maior do que estava à espera, cidade estratégica nas incursões à Europa de Leste.
A primeira foi um choque. Saído da civilização educada e rigorosa, não esperava tanta pressão e agressividade nos comportamentos de toda a gente: os funcionários do turismo enganaram-nos, os funcionários do hotel enganaram-nos, a polícia multou-nos sem razão, os funcionários do metro procuravam turistas ingénuos, sei lá mais quem é que nos enganou.
Felizmente que pouco mais de um ano depois, já na fase de descompressão de meses intensos de trabalho, passei um fim-de-semana prolongado em Praga. Tudo bem, visitei a cidade turística e tirei fotografias aos cemitérios judeus mais impressionante que alguma vez vi, mas desta vez havia algo mais para conhecer, partilhava lugares com gente que vivia em Praga e já conhecia os seus percursos, era mesmo isso que queria.
Mal sabia que menos de um mês depois iria reincidir naquela vida: vindo de uma mítica pequena cidade alemã chamada Gelsenkirchen, dormido numa estação de serviço e acordado como campão europeu de clubes de futebol. Pelo caminho a matrícula do carro e os nossos cachecóis originavam acenos e apitadelas, sorrisos e congratulações. Chegámos a Praga à noite, a tempo duma festa Erasmus nas margens do rio.

Não deixa de ser curioso que de cada vez que me cruzo com Praga sinto necessidade de me afastar daquela diversão toda. É um fenómeno estranho, acabo sempre por voltar à terra das cervejas baratas e dos shots de absinto, nem que seja para ter a certeza que prefiro saír dali depressa.

 
ROMA por Paulo Moreira

A vantagem de se começar um inter-rail no centro da Europa é que na primeira paragem se está em Roma.
É Agosto, quero conhecer de novo a cidade e quem se move dentro dela.
Subimos para o comboio à chuva, em Basileia. Dias e dias de trabalho interrompiam-se finalmente, o destino era Sul.
Abrir a janela do comboio pela manhã causou-me um sorriso inevitável: o Sol brilhava, a paisagem também. Já tínhamos estadia marcada perto da estação, deixámos as mochilas e fomos ver as ruínas. Um dia inteiro a andar a pé, um calor abrasador, maravilhado por aqueles muros sólidos e intemporais.
A certa altura tínhamos que voltar para o hostel e descansar, dormir talvez e mais tarde pensar no que fazer. Mas ao entrar na camarata fomos convidados para um ‘pub crawl’ que começava dali a uma hora ou duas. Afinal não havia tempo para descansos, só tomar um banho e seguir.
Assim foi, uma acção intensiva desde o momento em que se junta o grupo, diverso nas proveniências mas homogéneo nos intuítos. Era Verão finalmente.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

 
AGRA por Manuela Silva

Noite Mágica em Agra.

Há dias em que recordando me pergunto se foi mesmo realidade ou se é um sonho, um desejo que quero pensar que se concretizou.
Afinal há momentos mágicos, que surgem inesperadamente, e nos ficam na memória para o resto da vida, pelo menos enquanto a nossa vida tiver memória.
Era o fim de Verão em Portugal, o fim da época das monções na India, e resolvemos ir numa "viagem organizada" à India Nepal e Tailândia. Decorria o ano de 1982 e esses países eram ainda muito longe, não havia tlm, nem telefones directos, nem terrorismo no Nepal, nem sacas plásticas nas lojas.


Estava programada uma ida a Agra, onde chegámos depois de uma viagem de autocarro a partir de Deli, cento e poucos quilómetros de estrada poeirenta, movimentada, com as bermas completamente cheias de pessoas em passo rápido .
Da chegada a Agra ficou-me a imagem de uma fila de prisioneiros "vestidos" com uma tanga, acorrentados uns aos outros, em fila indiana, acompanhados por polícias de ar triste, armados de espingardas. Essa imagem de chegada não me fazia prever o momento inesquecível que essa cidade me proporcionou.


Durante uma deslocação em riquechó (será assim que se escreve?), o "motorista", homem muito educado e prestável, perguntou-nos se queríamos que nos levasse a visitar o Taj Mahal à noite. Surpreedidos, por termos lido que o recinto fechava ao pôr-do-sol, perguntámos como era possível, ao que nos explicou que era noite de lua cheia, e por isso se podia visitar. Combinada a saída foi-nos buscar ao restaurante onde jantámos.

E assim começou a noite que mais lembranças me deixou. Percorremos ruas e ruelas estreitas, escuras, cheias de cheiros e sons de música de cítara, onde viamos moverem-se como em slow motion vultos de homens e mulheres que se preparavam para recolher.E de repente como por encanto desembocámos numa área aberta, extensa,escura, sobre a qual flutuava um edifício azul claro, imponente, leve e enorme. Sentia-se um silêncio intenso, embora se ouvisse o som de música de cítaras.

Essa imagem de um edifício de mármore branco, a reflectir o azul do luar foi a mais bonita imagem que até hoje disfrutei de alguma coisa construída pelo homem. E pensar que foi mandado construir como testemunho do amor de um homem pela mulher que morreu a dar à luz um filho, e que esse mesmo homem acabou os seus dias prisioneiro num forte, de onde podia ver todas as noites de lua cheia a mesma imagem que me proporcionou...
Há momentos mágicos!


Gostava que todos pudessem ir a Agra, numa noite de lua cheia.

domingo, janeiro 08, 2006

 
VARANASI por Maria Sottomayor

Uma cidade mais antiga que a propria historia - dizem eles.
O frio esta a chegar ao norte da India e quero agora mover-me para sul. Mas antes de ir a Mumbai grizar-me com as estrelas de Bollywood, vim a Varanasi uns dias....era incontornavel. Morrer em Varanasi é um desejo para maior parte dos hindus. A cidade sagrada onde passa o rio Ganges nao descansa nem um só minuto das celebracoes fúnebres. As mulheres que pertencem à família não estão autorizadas a ir até ao rio assistir a cremação, mas os turistas podem assistir desde que não tirem fotografias....será que se não fosse proibido, haveria algum japonês a tentar captar tal sagrado momento? Não me atrevo a dizer que não. Ironicamente, hoje esta cidade fez-me lembrar o Porto. Acordei às 6 da manhã para ir ver o nascer do sol e andar de barco. O rio poluído, um semi-nevoeiro, um barco de madeira, as casas de diferentes cores, sujas e antigas...E na água que tem tanto de sujidade para uns como de sagrado para outros, há gente a tomar banhos libertadores durante todo o dia e mulheres a lavar a roupa. Lençóis enormes de diferentes cores que depois se estendem a secar nas escadas junto ao rio. Escadas que chegam ate templos e assim sucessivamente por mais de 7 km de costa. Templos, gente, fogo, flores, lençóis, cores, escadas, vida, morte e deuses. Sempre muitos deuses.

Dizem que quem morre em Varanasi esta livre do ciclo das reecarnações e vai directo para o Nirvana. Há pessoas que quando envelhecem ou ficam doentes vêm morar para aqui quase como que para assegurar lugar no tal paraíso...O que será isto? O ambiente é difícil de descrever, mas muitos de vocês já devem ter uma vaga ideia do que isto é (Ernesto, eu sei que andaste a ver aqueles documentários da rtp 2)...No entanto, não tem nada de trágico ou dramático. Uma beleza um pouco mórbida, mas que se aguenta realtivamente bem. Quer dizer, nao sei se bem ou mal são boas maneiras para descrever a sensação. Noutro sítio talvez encontre as palavras certas. Uma maneira totalmente diferente de encarar o desconhecido...
(...)

http://www.maryconnections.blogspot.com

sábado, janeiro 07, 2006

 
HONG KONG por Paulo Moreira

Parece mentira esta cidade! Uma atitude cosmopolita, frenética, executivos, negócios e compras, kawloon, as pessoas usam all star e falam incessantemente com telemóveis de abrir, há muitos adereços, a decoração kitsch chegou ao corpo humano com sucesso!
As ruas servem para os carros, os passeios são outra história, elevada, entram nos edifícios e transformam-se em lojas, muitas lojas e muita gente, os semáforos marcam um ritmo veloz, de cada vez o verde traz mais mil pessoas a atravessar, não sei de onde vêm, pra onde vão, mas vou com eles, descobrir uma paisagem poderosa e só mais tarde pensar sobre o que aconteceu.

 
MUNIQUE por Paulo Moreira

Agora que penso nas coisas: o que me terá feito ir três vezes a Munique em menos de um ano? Em primeiro lugar a vantagem de ter vivido no centro da Europa. Dizer estas coisas agora parece um devaneio capitalista qualquer, mas na altura não pensava muito nisso.
Cada uma das três viagens teve a sua história, não sinto que tenha repetido muita coisa, mas mesmo que tivesse: qual seria o problema?
Fui duas vezes de carro e outra de comboio, sempre desde Basileia.
Na primeira ida fomos dois no Jeep, daquelas viagens em que se passa por Bregenz e se vê o Kunsthaus à noite. O engraçado disto tudo é que estávamos já na Alemanha quando um amigo me telefona a perguntar se eu tinha o número de nosso amigo que vivia em Munique, porque estava a caminho. Eu não só tinha esse número como também ia para lá, por isso dali a um bocado encontrávamo-nos.
Foi muito positivo esse encontro involuntário, dois que viviam em Basileia e dois que viviam em Milão e Mendrisio (mas vinham de Zurique), passarem por Munique por coincidência. Juntamente com o casalinho amigo residente, fomos saír e pôr a conversa em dia. Tenho esta recordação, todos no ‘The Garden Club’, de repente no meio de uma cidade qualquer, com todo o respeito por Munique.
Uma noite depois uns seguiram para Praga e outros dois ficaram mais um pouco. Visitámos umas coisas, claro, tivemos a oportunidade de visitar exclusivamente todo o estaleiro da Alianz Arena, outra vantagem de trabalhar onde trabalhava.
À noite encontrámo-nos com outro meu amigo alemão. Havia uma festa na casa de alguém. Penso que foi nessa noite que fomos ao ‘Registratur’, uma discoteca que me faz lembrar o ‘Razzmatazz’ de Barcelona. Uma fábrica antiga em tijolo, enorme, demasiado ocupada com a qualidade da música para perder tempo com maquilhagens.
Outras idas a Munique têm pontos em comum, o The Garden por exemplo, e especificidades únicas, como a Oktober Fest. É daquelas coisas que se tem que fazer nem que seja para não repetir, o que nem sequer é o caso. Mas sobre isso não vou falar, pode surgir por aqui a qualquer momento alguém que saiba mais sobre Munique do que eu.

 
LONDRES por Paulo Moreira

Nunca vou saber como poderia ter sido o dia em que não fui a Londres.
Ficaria hospedado em Hackney Downs num armazém transformado em casa ilegal por cima de uma sucata. Na rua haveria homens em volta de barris metálicos incandescentes, debaixo da linha de comboio.
A casa teria um carisma especial por não parecer uma casa. Um espaço de grandes dimensões apropriado por muitas coisas: muitas cassetes de video, muitos cd’s, muita roupa, muitos livros, cadeiras, muita coisa. Nos extremos deste espaço haveria divisórias que encerrariam três quartos pequenos, que aproveitariam a grande altura do espaço com uma mezzanine onde se poderia dormir. O espaço central teria uma janela em toda a extensão, ao nível da linha ferroviária. Pareceria que os comboios estariam dentro de casa, mas em silêncio, haveria uma música qualquer inovadora que esconderia esse barulho.
Na televisão poderia ter visto o Metropolis, numa tábua-de-passar-a-ferro transformada em mesa estaria um mac, obras de arte recicladas e papéis com agendas de concertos.

Nunca vou saber como poderia ter sido o dia em que não fui a Londres.
Iria com certeza à livraria do RIBA, compraria um livro de fotografias sobre os territórios ocupados da Palestina e outro sobre o espaço público incerto de Berlim. Iria a Camden Town comprar um casaco em segunda mão, uns pins para dependurar nos bolsos das calças e um cd de música electrónica alemã.
Depois regressaria a casa, East London, pela janela do comboio veria fábricas com ar abandonado e torres lá ao fundo.
À noite iria por exemplo a uma festa seventies onde o próprio espaço cheiraria a naftalina, toda a gente se deverteria muito com aquelas roupas. Poderia em vez disso ir até West London ao ‘Notting Hill Arts Caffé’, onde conheceria gente de todo o mundo que me perguntaria desde quando é que estava em Londres. Ou então iria ao The End, à festa ‘Trash’ das Segundas-Feiras, as pessoas usariam gravatas pequenas por cima de t-shirts e a música oscilaria entre techno e revivalismos dos anos oitenta.

Nunca vou saber como poderia ter sido o dia em que não fui a Londres. Iria a Satchi Gallery ver uma exposição espectacular qualquer, passaria pela Serpentine Gallery para ver o pavilhão provisório Siza & Souto Moura, e depois iria à Tate Modern ver objectos e projectos em que participara. A exposição ocuparia a grande sala das turbinas, haveria mesas dispostas no espaço aleatoriamente, cada uma mostraria projectos em várias cidades, Nova Iorque, Tokio, Pequim, Barcelona, Hamburgo, San Francisco. Seria uma experiência única, ver num museu de arte contemporênea tão importante como a Tate Modern maquetes em madeira, cartão, gesso e protótipos de tijolo que produzira em Basileia alguns meses antes. Na livraria folhearia um livro das ‘Chicks on Speed’ organizado como uma casa com vários pisos e várias divisões, gostaria de comprá-lo mas talvez fosse demasiado caro.

No dia em que poderia ter ido a Londres não fui por isso não fiz nada disto. A 7-7-2005 explodiram algumas bombas na cidade e não havia transportes, passaram-se uns dias caóticos. O meu voo não foi cancelado mas resolvi não ir. O shuttle de Stansted para Liverpool Street não funcionava, o metro não me levava à Tate, o comboio não passava em frente à casa de Hackney Downs, como se estivesse lá dentro. Algumas pessoas telefonaram-me para saber se estava bem mas eu não tinha ido, por isso estava bem. Em vez da festa seventies fui ao Churrasco na FAUP, em vez do ‘Arts Caffé’ fui à festa no ‘Bairro Inez’, também havia gente de todo o mundo, a exposição já tinha visto em Basileia,
não ia ficar muito tempo a pensar no que não tinha feito em Londres.

 
LUZERN por Emanuel Sousa

Luzern, diz-se, ser muito mais bonita no verão quando a envolvente se torna verdejante, mas com neve em volta, nãoperde o charme, pelo menos para nós, latinos, menos habituados a estas andanças do branco manto de neve...

o fim de semana começou na sexta, logo de manhazinha, com um pequeno passeio pelo casco velho da cidade seguido de um pequeno cruzeiro-almoço, no lago de Luzern, que apesar de repleto de nevoeiro, envolveu-se numa aura mágica, digna dos contos fantásticos...
depois de um pequeno impulso consumista, próprio de quem vive entre shoppings, fomos vistar um deles nos arredores da cidade, pequeno e desinteressante comparado com os nossos, que logo se abandonou, para retornar à cidade, visitar as suas pontes cobertas, algumas das suas praças e deambular pela suas ruelas, saboriando o quente das castanhas de rua...
a noite acabou com um jantar no Einhorn, um restaurante de comida italiana bem no centro, com muitos empregados portugueses...
aliás a cidade está repleta deles, de madeirenses a açorianos, passando por terras bem mais proximas daqui, como marco de canaveses, a cada esquina se encontra um 'tuga', no melhor sentido da palavra, que logo se entrega ao portugues para nos dar conselhos, sugestões, falar de portugal e da suiça...

No sábado, fizemos o circuito turistico, apanhamos um autocarro até Lide para aí apanahar um teleférico que nos levaria a Pilatos, a montanha mais alta em redor. O percurso, até ao teleférico, feito a pé, por muitas razões fazia lembrar, a atmosfera, da série Heidi, que encheu grande parte das nossa infâncias. E a subida no teleférico, apenas confirmou a verosimelhança da paisagem real com a ficção. Deveras mágicas aquelas cabanas perdidas na montanha, coberta de branco...

Apesar de termos chegado ao cume rapidamente, a paisagem muda drasticamente, do verde ao branco, do frio ao gelo, da paisagem domesticado à paisagem mais agreste e virgem... a força da antureza encontra-se lá, livre, como os flocos de neve que esvoaçam à nossa volta... Foi lindo...
Em cinco minutos, a paisagem que se estendia por kilómetros envolveu-se numa névoa inerte, que fechou a paisagem, sobre si mesma, num manto branco sem profuindidade que nos rodeava... A paisagem continuava lá, mas coberta com um fino véu de neve... Acabamos a comer Fondue de queijo, no La Taverne, no topo da montanha, ora vendo a paisagem ora sentido que nos encontravamos dentro de uma nuvem...

Ao início da tarde, já estavamos de volta à cidade, a viagem de teleférico tinha sido algo vertiginosa, com a penetração desse véu, que assim abria a paisagem em toda a sua magnificiência, e altura, como se saltassemos dessa nuvem para o mundo lá em baixo...
Anoiteceu enquanto se deambulva pela cidade, pelas feiras tradicionais que agora abundavam pela cidade, provavelmente pela proximidade com a chegada de São Nicolau, que chega dia 6 de Dezembro, com as prendas de natal... Pequenas preciosidades feitas à mão, misturadas com bugigangas de metal, que se amontova nas pequenas praças. As pessoas em volta do bar improvisado, aqueciam-se com o vinho quente, que logo experimentamos...
Acabamos por nos sentar na margem do rio, fazendo um magusto tardio, castanhas e vinho quente, enquanto cisnes e pequenas aves de rapina, atabalhoadamente, se posicionavam à nossa volta, na esperança de conseguir repasto para a noite...
A noite caia e acabamos no JazzKantine, um pequeno bar cheio de gente, onde passamos algumas horas conversando, e tentando ler as revistas encriptadas em alemão, acompanhados pelo reconfortante chá quente...O jantar foi fora da cidade, num pequeno restaurante de charme, o Maihofli, com comida excepcional, um gosto tradicional e muito caseiro, com um toque de 'nouvelle cuisine', acompanhado pelo vinho francês suave. A noite acabou no lowengraben, um post-chic lounge, bar do momento em Luzern.

Domingo foi o dia da despedida da cidade, com um passeio a pé em volta da muralha, com as suas oito torres, semelhantes às torres que circundam Hogwarts, em 'Harry Potter', o dia estava claro e azul... as cores de outono ainda perduravam, apesar do frio... A visita logo pela manhã, ao 'Dying Lion of Luzern', culminava a despedida com o seu ar triste...
Saímos de Luzern pelas duas da tarde, com a ideia de visitar a zona ribeirinha de Zurich... Não sem antes experimentar, e despedirmo-nos à boa maneira germânica, com uma boa salsicha, 'wurtz'... Delicioso, provavelmente da fome, mas sem dúvida, memorável.

Zurich, ficaria para a próxima, a chuva levou-nos directamente ao aeroporto, onde ficamos a restante tarde, demabulando pelo 'Duty Free', nele próprio uma experiência do primeiro mundo e da ordem suiça....

terça-feira, janeiro 03, 2006

 
LJUBLIANA por Paulo Moreira

Já alguma vez vos aconteceu ir a um sítio qualquer e gostar tanto que resolveram não voltar? A mim já. Os quase dois meses que passei no Brasil... e uma noite em que estive em Ljubliana. O destino era Veneza, jantámos em Zagreb, a Eslovénia ficava a caminho. Era Sábado de Carnaval e ainda não sabíamos que íamos passar lá a noite, mas teve que ser. Dormimos no carro e no dia seguinte seguimos viagem. Entretanto nem sei explicar muito bem o que aconteceu, de repente toda a gente estava mascarada, menos nós, não esperávamos tal recepção. Muitos bares e amizades espontâneas, e tal como roubei uma pedra da Acrópole de Atenas, também trouxe uma caneca de meio litro de Ljubliana. Não é que me fosse esquecer daquela cidade, mas pelo menos tinha algum objecto por perto. Curiosamente um ano e meio depois uma das três testemunhas de Ljubliana partiu a tal caneca em Karlsruhe, sem querer. Enfim, manias que com o tempo espero ultrapassar. Por falar nisso, pressinto que não falta assim tanto tempo para voltar ao Brasil.

 
MADRID por Paulo Moreira

Há uns tempos que não fazia isto: viagens insólitas.

Decidir com conciencia e partir uns instantes depois.
Evidentemente que num período tão curto como trinta horas não é possível descrever toda uma cidade, mas há uma impressão que fica:mesmo se mais tarde mudar de opinião, a primeira impressão não se altera. E Madrid, espontaneamente, pareceu-me uma cidade regular, normal.
Gostei especialmente de ter percorrido as ruas e avenidas de carro, é coisa que nem sempre tem sido possível fazer, observar os edifícios a passar, o trânsito desordenado, antipático, conversar sobre o que víamos através do vidro, por exemplo.
A extensão da Castelhana permite uma conversa prolongada. Há enfeites de Natal, há torres envidraçadas, um centro financeiro típico de uma capital. No final, dois edifícios inclinados provocam algum espanto e vontade de repetir o percurso.
À noite há muita gente e animação mas o ambiente geral não me motiva particularmente. Felizmente há bares como o La Ida que me fazem recordar outras paragens.
Senti-me bem em Madrid devido à situação – ser algo novo, intenso e curto, catorze horas em auto-carros para passar uma noite e um dia com gente que viaja e diverte-se com isso, não pertenço a Madrid mas agradou-me respirar aquele ar.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

 
MADRID, por Ana Micaela Pedrosa

Troco de sapatilhas para saltos sentada num banco, em frente a uma antiga porta de garagem demasiado carregada de desejos. Era uma oportunidade única para montar uma personagem e exigia-se rigor.

Com sesta ou sem sesta, tudo pára até às quatro, hora em que tudo recomeça e acaba tarde. A seguir, cañas, tapas e cigarros…e não jantam, para meu espanto e fome.

Contaste-me essa tua primeira noite de assombro passada em claro na ruas de Madrid a atirar flashs contras as fachadas iluminadas. Eu ria-me divertida das tuas avenidas, pelas quais descíamos e que eu já conhecia mas não pela tua mão. E dizia-te que do que eu gostava era do metro rouco arrastar-se numa chinfrineira de ferros; do que eu gostava era dos vendedores ilegais a levantarem em debanda dos passeios arrastando grandes lençóis e empurrando-nos contra as montras; e do que eu gostava era de ir sozinha à loja do chinês ver as bolachas e as gomas avulso e as batatas fritas a forrarem montras num aquário de enjoo e atracção. E tu rias-te das minhas tascas sujas.

Os madrilenos falam alto, praguejam e praticam saudáveis vícios corrosivos. Cigarros e cerveja são o sustento diário, a mais magra das dietas. Se somos uma portuguesa a pedir ice teas e uma declarada não adepta de cigarros e outros afins, desconfiam imediatamente de ti, dessa classe de gente que quer levar vidas saudáveis. São necessárias acrobacias elaboradas, provas irrefutáveis de outros vícios degenerativos. E com o tempo lá se fiam…

As espanholas são amigas fabulosas, de língua aguçada e mordaz a picar-nos sempre onde nos sentíamos mais moles, a piscarem-nos o olho e a rirem-se num hábil jogo do dito e do não dito. As palavras enrolam-se, dobram-se do avesso, trocamos olhares e a gargalhada é geral.

As espanholas saem à rua à noite, com o vestido, a meia, o sapato, o colar, o baton, o rímel, a carteira…saem com tudo. E brilham. E depois da cultura metem-se, metemo-nos, num delicioso bar escuro e apertado, esmagadas contra um balcão a picar e a beber. Com o tacão alto evitamos nos primeiros cinco minutos as beatas e as bolas de guardanapo espalhadas pelo chão.

Está quente e pegajoso o ar. Levas-me a dançar. Como em Bogotá, o que é toda uma outra história…

Cá fora um frio áspero obriga os pés cansados a arrastarem-se pelos passeios de malasaña. Há sempre ainda uma varanda que não cedeu à fadiga, e que segue a gritos e gargalhadas, e ainda um carro a cuspir música que não deixam nunca a noite cair em silêncio. Deixámo-nos nós engolir pelos túneis do metro e tecemos planos de fuga na linha azul.

Em Madrid, qual globalização qual quê… Os espanhóis apropriam-se de tudo, da mais sofisticada delicatessen francesa à bugiganga chinesa. Tudo é torcido e deformado para entrar nos jogos viciantes de malícia e humor. Não existem pens nem airbags, nem lingerie, nem regras anti-tabagistas e higienistas da comunidade. E o que por vezes é uma irritante corrupção de filmes e livros estrangeiros, outras é uma saudável resistência à uniformização.

O empregado de balcão aguarda com impaciência o nosso pedido, que deve ser rápido e preciso. Grita para o lado, atira-nos com os copos, um valor e volta-se para outro lado. Nada dos galanteios e mimos portuenses e muito menos sul americanos.
As espanholas intimidavam-te.
Era um chá. Chá quente para cortar a tarde de neve que desce lá fora. Chã preto, escuro e azedo se faz favor. Nada de tisanas adocicadas.

segunda-feira, novembro 28, 2005

 
BANGKOK por Paulo Moreira

Outro estilo que me agrada, viagens-surpresa.
Nunca imaginei que fosse a Bangkok, até uns quatro ou cinco dias antes de ir. Não quis ver imagens com antecedência, mesmo que quisesse não me tinham deixado. Ainda bem. Tinha que aterrar em Bangkok e não fazer ideia de nada. Três dias em Bangkok é uma experiência intensa. É indiscritível. Há um bar ao ar livre no topo de um edifício com cinquenta e nove pisos, de onde não se vislumbra o fim da cidade em qualquer dos sentidos.
Há muitas auto-estradas, viadutos caóticos, espectaculares.
Talvez seja a cidade mais barata onde já estive. Dei por mim a regatear vinte cêntimos, que situação. Os templos budistas são algo que não imaginava, o mundo afinal é diverso. Fiquei a pensar sobre isso enquanto recebia uma massagem, antes de ir à BedSupperClub.
Engraçado, perguntaram-me de onde era e respondi: “I’m from Europe”.“Ah, Europe!”. Que satisfação, que bom que é viajar sozinho, sentir-me exótico, diferente. Que viagem alucinante, que bom que é andar de tuc-tuc.

 
BUDAPESTE por Paulo Moreira

Gosto de não ver tudo quando visito uma cidade. Ver só uma parte. Ir a algum lugar sem propósito, simplesmente passar por lá e ficar com uma ideia. Ir a algum lugar propositadamente para entrar num edifício específico.
Em Budapeste foi assim. Na primeira vez eramos estranhos, ausentes, vagueávamos pelas ruas observando aqueles muros desfeitos pelo tempo, uma cidade que se percebe que já foi capital de um Império.
A primeira impressão não foi positiva. Assistimos a um assalto, espero que tenha sido só isso. Saír à noite –a noite de Budapeste... – acordar tarde, internet, almoço, deambular e tirar fotografias. Esquecemo-nos de ir às termas, mas não fiquei preocupado porque assim tinha motivos para voltar.
No ano seguinte, numa quarta-feira de Julho, um amigo perguntou-me: ‘Queres ir para Budapeste amanhã?’. De facto fomos. Convém esclarecer que na altura vivia em Basileia e nos fins-de-semana apetecia-me viajar, felizmente tinha dinheiro para isso.Encontrei uma cidade muito diferente, já sem os montes de neve preta nos passeios que havia na primeira visita. Agora estava calor, o BudahBeach era ao ar livre, as três termas a que fomos tinham cada uma o seu encanto, não consigo decidir qual a que mais gostei. Uma certeza pelo menos tenho: sente-se ali uma atmosfera qualquer que me fez lembrar as montanhas de Vals. Tudo fazia sentido, as coisas relacionavam-se, é isso que procuro.

 
CRACÓVIA por Paulo Moreira

Viagens, não tenho um estilo preferido. Gosto de viagens curtas, longas, solitárias, bem acompanhadas. Cada uma tem as suas particularidades.
A Cracóvia fui sozinho. Uma viagem pouco racional, gosto disso. Era Domingo e estava em Praga, tinha avião de Estugarda para Lisboa na quarta-feira seguinte, ainda tinha tempo. Não conhecia a Polónia, diziam bem daquele país. Na segunda-feira apanhei o comboio nocturno, terrível, inseguro, muito tempo na fronteira, línguas desconhecidas.
Cheguei a Cracóvia pela manhã, muito cedo, a camioneta para Auschwitz era só às 10h. Auschwitz e Birkenau... há que lá ir, passar algum tempo triste, chocado.De volta a Cracóvia era tempo de procurar abrigo, uma noite só. Viajar sozinho permite conhecer muita gente. Numa camarata eramos quatro, todos em viagem solitária. Seguindo alguns conselhos prévios, jantei muito bem e fui saír, um dia de semana em Maio, mas uma noite no mímino divertida. Tenho que voltar a Cracóvia.

terça-feira, novembro 22, 2005

 
BARCELONA por Inês Moreira

BCN x 3 diários

Barcelona. Não é a minha cidade. Essa é o Porto, embora eu viva há 2 anos emLisboa. Barcelona, é lugar comum dizer-se, para mim é um conjunto de cidades diferentes que fui experimentando ao longo do tempo. Não tinha esta noção, até que estive em Barcelona em Novembro (neste!) e vim com a incumbência de colaborar no city-scapes. Ficam algumas memórias destas 3 cidades.

1. do postal de história da arte ao erasmus (até 2000)
a primeira BCN, das férias com os pais e irmãos, do Gaudí, do Dali, do Miró, das sardanas, dos jogos olímpicos, do Picasso, figuras que depois aprofundei na visita de estudo da escola secundária (também envolvida em estórias da turma) é a cidade da moldura postal, a da historia da arte moderna. Conheci uma cidade que me fez querer regressar no programa erasmus, no 5º ano da faculdade. Então, quis viver no ensanche, esse ícone do urbanismo moderno. A linha verde levava-me do meu quarteirão até à cidade universitária, na ponta dadiagonal, um pólo concentrado de serviços para estudantes que eu também não conhecia. Divagava pela BCN de experts pouco experts, uns lugares alternativos, uns bares de cava e champanhe, muito estrangeiro. Muito português, pouco catalão. No meio de muito projecto e da teoria da arquitectura que aí conheci, explorei a cidade antiga, o colégio dos arquitectos e a sua biblioteca. Por diversos meios absorvia informação. Conhecia uma BCN ainda muito mainstream.

2. a transição: do ensanche para a cidade velha (2001-2003)
Foi num curto estágio que realmente conheci a cidade velha.
Trabalhava numa passage, essa figura do urbanismo do século XIX (que em Portugal não existe), que só conhecia dos livros. Trabalhava com gente que já vivia fazia tempo e me mostrou um pouco mais, numa visão mais “de dentro”. Então, nos percursos ensanche-gótico and back, fui conhecendo uma cidade à qual quis voltar. Inscrevi-me no mestrado e, já sem tugas nem referentes conhecidos, mais importantes do que aqui parece…). No pólo cultural do macba/cccb estabelecia percursos até ao borne onde vivia. Após as aulas de mestrado fazia uma descoberta diária de novos lugares. A sesta, as sombras, o raval cada vez mais profundo e menos temido dado o meu conhecimento. O domínio da cidade deu-me a sensação de ser agora um deles. Estava já camuflada. Bcn era minha. Existia todo o tempo do mundo para lá estar. Sempre pensei que ficava até que fui para Lisboa. E voltei para conhecer BCN diferente.

3. BCN – pós estudos. 2004-2005
ir e vir. ir e vir.
em 2004 com Paulo. Em 2005 com o Paulo e com a Violeta, encontrando o meu irmão a viver no meu bairro. Já não é primavera-verão (as épocas de mestrado), mas sim Outono. E chove… muito não é a mesma cidade. Agora BCN é outra. Não há tempo para fluir na sua naturalidade. Há agora uma agenda, reuniões, contactos. Não tenho casa, fico num hotel: 1º central, para fingir que ainda lá estou. Depois mais longe, melhor, com mais qualidade e já pago pelos espanhóis que organizam a feira na qual participo. Não posso andar de metro, pois a violeta ainda é frágil e o seu carrinho pesado. Não vou à biblioteca, vou à livraria, aproveito para trazer a informação que lá não chega tão cedo. Não vejo os meus amigos, mas conheço gente e faço outros contactos. Penso ir à cidade que antes também era minha e não a encontro. Isto é surpreendente. Encontro uma outra BCN, que continua aberta, em novidade e variedade. Espero voltar com mais tempo, dentro em breve. Para mim Barcelona é BCN x 3.
São 3 cidades que conheci.
Pensando nelas, espero que venham a ser ainda mais.

Inês

quarta-feira, novembro 16, 2005

 
BARCELONA
Podia escrever sobre Barcelona todos os dias durante muito tempo que teria sempre histórias diferentes para contar. Parece-me que quando se visita uma cidade incessantemente é tempo de se mudar para lá. Costumava vir cá sempre que podia, nos últimos anos, pelos mais diversos motivos. De modo que, naturalmente, era hora de viver aqui, gastar as pedras das ruas mais um bocadinho, repetir um trajecto várias vezes por dia e sentir prazer com isso, sentar-me na varanda sem vontade de cozinhar, ollhar lá para fora e reparar que me sinto bem nesta cidade.


Paulo Moreira

quarta-feira, novembro 02, 2005

 
BARCELONA por Marta Abreu

Barcelona é uma cidade onde não podemos estar parados, porque ela não nos deixa. Barcelona obriga-nos a andar de um lado para o outro para a conhecermos, a olhar para todos os pormenores nas ruas, nas praças, nas vielas, nos edifícios, nos vários bairros. E mais – obriga-nos a estarmos atentos a milhares e milhares de detalhes e recantos.
Por mais guias, revistas e livros que possamos ler sobre esta cidade, o mais aconselhável seria VIVER Barcelona no seu melhor!

Todos nós já ouvimos falar, ou já visitámos a Casa Milá do Gaudí, o Pavilhão do Mies, a Ponte do Calatrava ou o Palácio de Congressos do Ferrater, mas para conhecermos a Biblioteca de Grácia, a Biblioteca Pompeu Fabra ou o Mercado de Santa Caterina precisamos de VIVER BCN.

Ainda mais importante que os edifícios públicos, como o MACBA e os atrás referidos, são as praças, os largos, os bares, os restaurantes, os objectos, as lojas e as pessoas que habitam a cidade.
Refiro-me à Plaza de la Universitat, à Plaza del Sol, à Calle Vila y Vilá, ao Benidorm e ao Mario que serve as Estrellas, aos Dos Trece, ao Iposa, à la Paloma, ao B-guided, ao Sandwich & Friends, ao la Pelu, à Pepa do 486 da Calle Valencia, ao Rá, à Biblioteca do Colégio dos arquitectos, ao Mercado de la Boqueria, ao Metro, ao Espai Ras, à Apolo, ao Margarita Blue e ao Rita Blue, ao Razzmatazz, à Calle Princesa, ao Born...
Entre estas e outras referências começamos a construir uma pequena imagem de BCN.

E é impossível caracterizar com frases cada um destes pormenores! Seria demasiado redutor! O melhor seria VIVER! Seria apanhar o comboio de Vigo para BCN, ou o “super descuento” da Iberia e tentar viver como os catalães vivem, para retirar o melhor que esta cidade nos pode dar! Para trazermos para as nossas cidades e para as nossas vidas um bocadinho dessa energia frenética que faz com que a cidade nunca pare de nos oferecer momentos, pessoas e uma arquitectura memoráveis!


Marta Abreu

terça-feira, outubro 18, 2005

 
SARAJEVO
Às vezes passamos por experiências que nos fazem reflectir sobre o que andamos a fazer por aqui. A viagem a Sarajevo teve um carisma especial por ter sido feita de carro. Julgo que se chegasse directamente de avião não teria o mesmo impacto. Desde logo uma paragem prolongada na fronteira e o desejo de 'boa sorte' por parte da polícia. Uma viagem silenciosa, casa destruídas continuamente, um tanque de guerra a chegar pela direita: terá prioridade? Por cada aldeia destruída há um cemitério improvisado e novas casas a crescer com bandeiras ao vento. As ruínas não são como as que conhecia, desta vez há buracos de balas, de bombas, que paisagem forte. Passámos por Mostar e chegámos à capital, Sarajevo. A entrada na cidade é marcante, prédios enormes abandonados, queimados ou devidamente ocupados. Trânsito, semáforos, capacetes azuis. Tivemos a sorte de ter conhecimentos, valem tanto numa cidade destas! Em qualquer cidade, pensando bem. Marcámos um encontro e desde logo tivemos uma grande ajuda em encontrar hotel a preço bósnio, náo turístico.
Estudantes de arquitectura como nós os 3, mostraram-nos a cidade, a faculdade, alguns bares entre os quais o Orange, desse lembro-me do nome. Comida típica, qualquer coisa com iogurte, uma esplanada dentro de um quarteirão cheia de gente ao sol, a conversar. Casa baixinhas no centro, muitas lojas, as pessoas caminham sempre do lado direito como os carros.
Mesquitas, Igrejas, Sinagogas em igual número: a raíz dos problemas. E em Sarajevo começou a 1ª Guerra Mundial, povo com tradição bélica mas sem saber explicar muito bem porquê. Há um grande orgulho em certas obras recentes, querem mostrar que o pior já passou, querem mostrar-nos a ponte do Renzo Piano mas nós não queremos ver: há coisas mais importantes.
As encostas pontuadas por cemitérios, o campo de treinos de futebol transformado em cemitério, que visão macabra, um rectângulo relvado com uma grelha de cruzes.
'Como conseguem viver assim?', perguntámos. Ter que conviver dia-a-dia com tanta destruição. 'Haviam de ter cá estado há 5 anos, isso sim era difícil'. Agora a vida corre normalmente, a gente é simpática, sorri, a cidade é incrivelmente segura, bonita, chocante.
Paulo Moreira

 
RIO DE JANEIRO

Um poema no feminino, solto de falas, de gestos, de cores.
Vestida de sépia se sobe o morro …manchada de verde se vista do céu.
Lugar de medo, de vida a mais, preenchida pela dor de muitos, vontade de poucos, sorte de todos.

Pincelada de urbano em mar de tinta.
Polegada marcada por dedos sujos que rodam imagens carregadas, pisam os entres, trilham os altos.

Hipótese de sonhos nunca concretizadas, percurso de tempo pensado em derradeiros ou longos momentos…história contada aos que nada sabem. Memória dos que sabem, momento.

Cidade de riscos planos, recortes macios, tumultos falhados, vultos morenos, rostos salgados.
Cidade de povo escuro, de sorriso escorregadio e olhar apertado. Cidade que escuta, que vigia, que vende, que vive. Que celebra e manifesta.
Cidade que foi. Cidade que, hoje, é.


Joana Simões
(texto entitulado 'O Rio de Janeiro continua lindo'_ Gilberto Gil
publicado no jornal 'TGV', FAUP em Janeiro de 2005)

 
VIENA
Viena apareceu em 2 momentos da minha vida, 2 viagens impossíveis de esquecer. Pelas circunstâncias em que aconteceram esses encontros... adoro esta cidade!
Em 2003 fiz com uns amigos uma viagem de 1 mês pela Europa de Leste. Chegámos a Viena vindos de Praga e Brno, fartos de ser enganados, pagar multas sem saber porquê, levados para o hotel errado, pagar as refeições mas não ter direito a elas, e mais outras histórias que não interessam para o caso. O que é certo é que Viena serviu para ter contacto novamente com a civilização europeia. Bem instalados, muito bem instalados, contra todas as espectativas gastámos menos dinheiro em Viena do que em Praga.
Há cerca de 2 milhões de habitantes, escala suficientemente aceitável para ter tudo o que uma grande cidade tem, mas sem se perder o sentido de orientação - o rio de facto dá muito jeito a certas cidades. Há inúmeros focos de interesse em Viena, a arquitectura de Otto Wagner e Adolf Loos, por exemplo. E houve surpresas agradáveis, como um pavilhão de Wagner ser um bar, ou a proprietária da casa Steiner de Loos ter aberto a porta a 4 estudantes de arquitectura, felizardos por ser Fevereiro e consequentemente haver poucas camionetas de turistas.
Há alguma arquitectura contemporânea interessante, Adolf Krischanitz e eventualmente Heinz Tesar e Coop Himmelblau, dependendo dos gostos. Hundertwasser é algo que toda a gente devia ver, pois coisa mais estranha é difícil encontrar nos nossos dias.
A cidade funciona muito bem, óptima rede de metro, 1 ou 2 minutos de espera em hora de ponta. Supermercados Billa, que descoberta útil, desconhecidos até então. E, já cá faltava, o bar Schikaneder, o meu género de sítio, relaxado, bem frequentado (excepto no 1º dia, mas não sabíamos), projecções porreiríssimas, uma montra, cadeiras e mesas todas diferentes, ambiente cosmopolita, cerveja a 3 euros, que saudades. Aconselho vivamente a discoteca Flex, junto ao rio, trash q.b., óptimo sistema de som, música electrónica puxada, como convém.
Pouco mais de 1 ano depois desta visita, dias após a conquista da Champions League, e fartos uma vez mais do excesso de turistas e do conceito de diversão de Praga e da má experiência na tentativa de ficar em Brno, eu e um amigo resolvemos voltar a Viena. Eram 11 e tal da noite e conversávamos num McDonalds qualquer: 'Vamos saír à Flex?'. Assim foi, Schikaneder, Flex, dormir no carro e de manhazinha visitar o estádio onde o FCP se sagrara Campeão Europeu 17 anos antes. Viena até à próxima!
Paulo Moreira

segunda-feira, outubro 17, 2005

 
MACAU
(...) Pareceu-me um exercício interessante parar no frenético modo de vida que sempre me persegue e pensar nos elementos que cedo formaram os ‘preconceitos’ que tenho deste lugar. Em Macau a característica territorial talvez mais marcante será a conquista de espaço ao mar – um processo que desde cedo existiu e que está longe de ter terminado. É certo que as cidades nascem no planeamento, sendo os edifícios o resultado dum sistema que prevê infraestruturas e acessibilidades. São eles, no entanto, que imediatamente nos atraem o olhar. Intuitivamente, ao contemplar Macau quando chegado do Ocidente, gravei uma série de imagens na memória, tratava-se de um mundo novo e desconhecido, imaginário do desenvolvimento do Oriente.
Edifícios massivos, destacavam-se imediatamente das referências até então mais próximas, os blocos habitacionais da Europa de Leste. Macau caracterizava-se por uma apropriação intensa por parte dos ocupantes. Estes edifícios não me chocaram só pela grandiosidade, impressionaram pela diversidade. Prevista, acrescentada, exagerada.
É interessante descobrir, hoje, que o que me fascina nestas construções não é certamente a elegância, não é a harmonia, será talvez a fealdade, eventualmente a degradação provocada pelo uso, pela insistente rotina de numerosas famílias que caminham pelas ruas, frenéticas, que falam, compram, vendem, trabalham – e vivem numa casa.
É uma beleza que me atrai, a das cidades, mais do que a do mundo rural. Nas cidades queremos prédios, confusão, barulho, comércio, serviços, carros, semáforos, lojas, gente a viver e a divertir-se, ou a stressar com o repouso. Periferias, zonas industriais: em Macau a própria cidade é tudo isso (fábricas em altura ladeadas por habitação e estacionamento...).
Julgo que o trabalho dos arquitectos, numa época de mudanças e prosperidades, deve ser o de compreender e interpretar estas heranças construídas. Como português-europeu-ocidental parece-me que o caminho a seguir deverá ser o de contribuir com uma visão crítica, abstracta e positiva para o crescimento da cidade.
A abertura da China ao Ocidente deve ser entendida no sentido de combinar, baralhar, simplificar, filtrar os elementos da sua arquitectura – só assim se garantirá a imagem homogénea de um território contínuo, com carácter, contemporâneo.
(...) Na minha opinião devemos dar continuidade à rota que alguma arquitectura em Portugal e na Europa segue, conjugá-la a tendência que Macau nos oferece: e assim garantir que continuamos presentes na história deste lugar. Julgo que a questão não deverá ser só a de seguir o rumo da pressão económica, a arquitectura deve permanecer forte e determinada na busca de um contributo cultural e social. Para tal, mais do que acompanhar as correntes do nosso tempo, considero que devemos antecipar o futuro – é afinal esse o papel do arquitecto, imaginar uma paisagem construída que mais tarde fará parte do imaginário de um determinado lugar.
Há que saber amparar e acompanhar Macau na ambiciosa conquista do mar, já que afinal foi essa ambição que um dia nos fez enfrentá-lo.
Paulo Moreira
(texto entitulado 'A Imagem da Cidade' publicado no jornal 'Hoje Macau' em 04.05.2005)

 
ATENAS
Há poucas cidades que me atraiam tanto. Atenas tem aquilo que eu procuro, o caos, a poluição, a descontração, a ocupação, a gastronomia, a frequência das ruas, e muito mais que tudo isto. Passei 3 vezes por lá em anos par, 2000, 02, 04. Em 2006 lá terei que voltar, com todo o gosto vou manter a tradição.
As duas primeiras idas tiveram contexto muito particular, férias de família na Grécia, uns dias em Atenas só pra picar o ponto na capital. Alguns museus, obviamente a Acrópole (à qual já voltarei), passeios pela Plaka, inesgotáveis, nem uma saída à noite. Agrada-me percorrer a cidade de carro, olhar para aqueles edifícios de aspecto clandestino, separados uns dos outros, com armaduras de ferro não rematadas no cimo das coberturas planas. De vez em quando há tentativas de modernizar a paisagem, edifícios feios que conferem à cidade um carisma especial, uma imperfeição que me comove.
Atenas é mais do que sentir o peso de um Império ido, apesar dos locais se refugiarem no 'berço da civilização' como nós fazemos com os Descobrimentos. Provocam-nos também insistentemente com o resultado do Euro 2004, ainda mais naquele Verão.
A escala da cidade agrada-me, 3 ou 4 milhões de pessoas. Criam-se naturalmente alguns bairros com diferentes conotações, como Psiri e Nea Smirni, aos quais comecei a afeiçoar-me na última visita. Vindo de Corfu, em pleno Agosto, inter-rail, Jogos Olímpicos, que animação. Foi diferente daquela vez, estar por minha conta em casa de um amigo ateniense, que dali a 2 meses iria prestar serviço militar, obviamente desejoso de queimar os últimos cartuchos de liberdade. O espírito hospitaleiro dos gregos é inigualável. Rodeados por países politicamente instáveis, com longa tradição de guerras, para os gregos é extremamente importante receber bem a Europa e o Mundo.
Estar em Atenas implica visitar a Acrópole, já para não falar no Licabetus, que vistas inacreditáveis da cidade. Na Acrópole percebe-se o que é arquitectura, apesar de posteriormente não ser fácil explicar. Gosto de ficar sentado à sombra a olhar para o Parthenon, muito tempo, desenhar, fotografar. É das coisas que me dá prazer na vida, dos lugares onde realmente sinto qualquer coisa especial, não há muitos em que isso aconteça. Igualmente marcante é confrontar o que rodeia esta colina monolítica, um aglomerado de edifícios, uma cidade com carácter.
Viver os Jogos Olímpicos é como dar a volta ao mundo sem saír do sítio. Quem diria que no mesmo dia era possível assistir a um jogo da dream team com um amigo americano, encontrar conhecidos espanhois, mais tarde brindar com iraquianos, caminhar pelas ruas e reconhecer nacionalidades pelas bandeiras que cada um exibia. Em Atenas a cidade e os seus habitantes também participavam, compravam-se bilhetes no mercado negro, na praça principal, legal por ser ali. E assim fui ver o Obikwelu e a final feminina de volei de praia, mais que um jogo, uma autêntica beach party.
Positiva a possibilidade de fugir da confusão turística, sorte estar com alguém que conhece os sítios, as melhores praias, os restaurantes mais incríveis, uma discoteca onde sem dúvida passei uma noite inesquecível: Envy Sea Side.
Há tanto a dizer sobre Atenas que nem sei por onde começar.
Paulo Moreira

 
ZURIQUE
É para mim sinónimo de boa vida. Vivi 1 ano a 1 hora de Zurique, por isso ia lá algumas vezes. Saír à noite, passar o dia, apanhar o comboio ou avião para outro sítio qualquer. Algumas destas idas a Zurique correram francamente bem, por isso tornou-se para mim uma cidade simpática e positiva. A opinião que temos dos sítios depende em grande parte da experiência que lá vivemos. Os lugares nem sempre mudam, mas as circunstâncias sim. Trabalhando durante a semana em Basileia e fugindo para Zurique de vez em quando nos dias livres, fez com que associasse esta cidade ao descanso e divertimento.
Um dia passado nas ruas comerciais, ricas, carros extraordinários, gente bem-parecida, cosmopolita, materialista, snob. Olhar o lago, passear no parque e visitar a última obra de Le Corbusier. Entrar numa óptima livraria, lanchar na confeitaria mais chique a que já fui. À noite jantar Kebab, iniciar itenerância de bares, despreocupados, mesas corridas, pesadas, mobiliário diverso, antigo, posters nas paredes, luz de velas, sorrisos, muito frio lá fora. Dançar em grupo, ser bem recebido, ouvir um concerto num último piso de uma casa qualquer com jardim. Beber um copo debaixo da copa de uma árvore gigante e de seguida ir à Supermarket com ténue noção das coisas.
Zurique é uma cidade segura, é possível dormir num parque de estacionamento dentro do carro e aproveitar o dia seguinte nas margens do lago, fazer amizades e cultivar o corpo e o espírito. Participar na Footjam 04, fim-de-semana completo na Rote Frabrik, descontracção, desporto e convívio. Definitivamente também a Street Parade 04 ficará para sempre na memória, a viagem de comboio em grupo, os shots de absinto, a música imparável e o desfile de personagens calorentas na estação central, um dia sem regras na Suiça. À noite, uma festa da espuma, um relógio a menos, peças de roupa, chinelos, ambos os pés cortados mas a certeza de uma grande diversão. 1 ano antes, em circunstâncias muito especiais, vida Erasmus, fui a Zurique buscar lâmpadas para uma festa à empresa que ilumina os maiores eventos da região. Um Clio vermelho, eu e duas amigas mais altas. Chegar à noite, ir beber um Porto nesta companhia, no dia seguinte acordar com a certeza de vir a ter histórias pra contar. Não há nada como ter a espontaneidade de apostar e a felicidade de ganhar.
Paulo Moreira

domingo, outubro 16, 2005

 
PORTO
Refiro-me à minha cidade. Onde nasci. Não quero, não é esse o intuíto destes textos, descrever os passeios de granito e a neblina romântica, as pontes e as escarpas construídas que caem em direcção ao rio. Prefiro enumerar experiências, pensar em coisas que aconteceram hoje mesmo. E uma vez que escrevo a poucos dias de abandonar novamente a minha cidade, depois de já a ter deixado noutras ocasiões, apetece-me referir as últimas coisas que tenho feito por cá, sem saudosismos de infância. Faz 1 ano que voltei, depois de 2 anos fora. Muita coisa se passou, especialmente ter vivido o Porto com uma nova atitude, tenho consciência disso. Andar a pé pela Baixa, almoçar numa tasca em Cedofeita, comprar qualquer coisa numa loja escondida e lanchar na porta ao lado. Viajar de casa até ao centro, 20 minutos a experimentar a cidade, alterar os percursos por diversão, estacionar facilmente em lugar privado, subir ao atelier, fechar a porta e pensar sozinho ou acompanhado. O Porto mudou para mim, desloquei-me: de dia e de noite. Recuperei uma parte do tempo perdido, fiz por isso. Vivi paradoxos nesta cidade, os sítios onde ia e com quem o fazia, um ano de transição, o fim de um ciclo, eventualmente.
Parte importante do meu ano foi vivida numa sala com 3 janelas, 2 mesas e 1 sofá na Rua Mártires da Liberdade. Isso mudou tudo. Descobri coisas que não tinha ainda experimentado e regressei a sítios que havia deixado pra trás, o Estádio do Dragão, a Casa da Música, as Moagens Harmonia, o Fantasporto, os churrascos da FAUP, as festas na garagem de taxis, na Alfândega, no Bairro Inês, na Breiner House. O Cubo, Piolho, Passos Manuel, Artes Múltiplas, Contagiarte, Indústria, há muito pra viver. Um dia que volte quero descobrir que há muito mais ainda, sentar-me com amigos num restaurante qualquer, comer uma francesinha e orgulhar-me da minha cidade. O Porto.
Paulo Moreira

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